A licença venceu. Quem vai cuidar do seu bebê?
Por Maria Cláudia Aravecchia Klein
Foto: Arquivo pessoal
 
Crianças pequenas precisam de rotina, descanso, espaço de interação com os pais e familiares, sono e alimentação regulares. Mas, o mais importante é a dose caprichada de amor e atenção, que é o que lhes proporcionam sentirem-se seguras e queridas, mesmo que isso seja suprido com a ajuda de profissionais e instituições de ensino especializadas.

Ao incorporar o papel de mãe, a mulher contemporânea é obrigada a optar por várias escolhas na hora de equalizar ‘trabalho e maternidade’: deixar ou não de trabalhar para tomar conta do filho (a), colocar ou não na escolinha, matricular em um berçário meio período ou período integral, contratar ou não uma babá e recorrer à ajuda do pai, familiares, avós ou padrinhos. São inúmeras as opções, mas o mais importante é preservar o bem-estar da(s) criança(s) e encontrar a melhor maneira de cuidar dela (s), caso não possa fazer isso sozinha.

“Poder presenciar todas as fases de desenvolvimento do meu filho não tem preço”, desabafa Lia Flávia Savaris Prokisch, 27 anos, mãe do pequeno Henrique de sete meses e meio. Antes do nascimento do filho, Lia sempre trabalhou, porém, pouco antes de vencer sua licença-maternidade, decidiu não voltar ao antigo emprego por avaliar que não compensaria financeiramente. “Acabaria trabalhando para pagar a escolinha, sendo assim, resolvi ficar em casa e cuidar dele até que tenha uma idade boa para entrar na escolinha, entre um ano e meio e dois anos de idade”, fala.

Em nenhum momento, Lia se arrependeu da sua escolha. “Estando presente, consigo passar mais segurança para o meu bebê, se comparado à transmitida por uma professora que tem sua atenção ocupada por outras crianças também. Nos diferentes momentos e descobertas, eu estava ao seu lado, acompanhando e incentivando tudo: quando começou a engatinhar ou a balbuciar as primeiras palavras, por exemplo. Acredito que assim que meu filho entrar na escola vai também incorporar o ritmo dos amiguinhos e eu vou ser uma mãe muito mais feliz por ter vivido com ele seus primeiros momentos de forma intensa”, conta Lia.

Autora do livro ‘O conceito da Obediência na Relação Escola e Família’* (Editora Paulinas), a pedagoga, psicopedagoga e doutoranda em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano, pela Universidade de São Paulo (USP), Luciana Maria Caetano, pensa que delegar a educação de um bebê a estranhos logo nos primeiros meses de vida não é boa idéia. “Não se pode negar a importância sem igual do papel da mãe no desenvolvimento, crescimento e asúde física e emocional da criança. Obviamente, os pais não são substituíveis. Mesmo que tenha que voltar a trabalhar, o tempo de permanência da mãe com seu filho deve ser avaliado pela qualidade das relações que se estabelecem. Por mais qualificada que seja a pessoa que cuida da criança ou a escola que ela frequenta, a família, especialmente a mãe e o pai necessitam privilegiar momentos imprescindíveis de convivência com o bebê”, alerta Luciana.

Porém para os pais que precisam e optam por matricular o bebê em uma escola, é de suma importância conhecer bem a instituição de ensino, sua linha pedagógica, infraestrutura, saber se os pais terão livre-acesso e receber detalhes do cardápio e das atividades voltadas às crianças menores. “Quando os pais procuram uma escola para seus filhos, precisam estar seguros da escolha feita. Infelizmente, em pesquisa relatada no meu livro*, ao questionar pais e mães sobre os motivos que definem a escolha da escola, as respostas são: valor da mensalidade e proximidade com a residência ou trabalho dos pais. Obviamente, se esses forem, tão somente, os critérios de avaliação, corre-se o risco, realmente, de deixar as crianças nas mãos de estranhos, ou até mesmo de pessoas despreparadas, que não dão conta de dividir a atenção com tantos alunos”, explica.

A maioria das clientes atendidas no consultório da psicóloga Mariana Simão Taliba Chalfon, diz viver esse dilema ainda na gravidez. Segundo a especialista, a sua orientação se baseia nas necessidades do bebê. “Alimentação, sono, estímulos e afeto. Essas necessidades não precisam ser supridas pelos pais, mas podem também ser providas por ‘cuidadores responsáveis’, como um parente próximo, uma babá ou uma berçarista. A decisão de delegar os cuidados do bebê é exclusiva dos pais - e vale lembrar que o bebê precisa passar por um período de adaptação com o “cuidador”, seja uma instituição escolar ou pessoa de confiança, antes que a mãe retome suas atividades normais. Desta maneira, na ausência da mãe, o bebê será cuidado por alguém com quem já tem certo vínculo estabelecido. Vale lembrar também que a mãe que fica com seu bebê em casa não corre o risco de se apegar-se extremamente ao filho, não. Um vínculo prejudicial é aquele no qual não há afeto positivo ou quando o bebê não tem suas necessidades supridas”, esclarece.

Para o psicólogo Sebastião Alves de Souza, a medida mais coerente é sempre o ponto de equilíbrio. “Neste caso, para uma mulher que deseja retomar sua carreira ou parte dela, o mais recomendado é deixar a criança meio período na escola e a outra metade com ela. Depende muito de cada situação. Uma criança que vai para a escola parte do dia e recebe um tratamento adequado pode aprender a se sociabilizar mais cedo, aprende a interagir e a incorporar obrigações. Ao mesmo tempo, um bebê, que fica sob a supervisão direta de pais desestruturados ou em conflito, encontra um ambiente nada salutar para o seu desenvolvimento”, ressalta ele.

Qual o papel da babá e da escola?

Na opinião dos especialistas consultados, primeiro, os pais devem questionar quem é a babá? “É uma tia cuja única diferença em relação à ‘tia’ da escola é que só tem uma única criança para cuidar? Quem é essa pessoa e quais são as suas referências? Qual é a sua formação? É importante lembrar que a profissional da escola é sempre observada por uma coordenadora pedagógica ou pela direção da escola, enquanto a babá, em casa, normalmente, trabalha sozinha e com os pais ausentes. Logo, vale a mesma questão: não é uma boa idéia deixar os cuidados de uma criança tão pequena e indefesa nas mãos de uma pessoa estranha. Outra coisa que deve se avaliar é: se os pais puderem realmente contar com uma profissional experiente e qualificada em casa, que possa cuidar das necessidades fisiológicas do bebê, da sua estimulação, e que, aliado a isso, sinta afeto e carinho pela criança e por seu trabalho, então será perfeito ”, observa Luciana sobre o nível de formação da profissional que cuidará do bebê, pois, segundo ela, a fase sensório motora (dos zero aos três anos de idade) é de extrema importância para o desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança, sendo o alicerce em sua existência humana.

“O bebê que vai para escola tem a probabilidade de adoecer mais frequentemente do que um bebê que fica em casa, por exemplo. Para o seu desenvolvimento, não importa se ele fica sob os cuidados de uma babá ou numa escola – ele precisa de estímulos e ter suas necessidades básicas supridas. Isso é possível em ambos os casos. A escolha da melhor opção deve ser dos pais, sempre de acordo com seus valores, expectativas e possibilidades. No entanto, uma sugestão é manter constantemente o olhar crítico sobre o “cuidador”, seja ele uma babá ou uma instituição. Um bom termômetro para isso é o desenvolvimento do bebê e seu comportamento em casa. No caso do ingresso antecipado na escolinha, a única diferença é o contato com outras crianças e com o meio social. No primeiro ano de vida, a criança se comporta de maneira autocentrada, ou seja, o prioritário é o seu desenvolvimento físico e motor - sabemos que relações afetivas positivas contribuem para o desenvolvimento do bebê. Já o relacionamento social com crianças da mesma idade é algo que, sucessivamente, ganha importância no decorrer do período pré-escolar. É preciso, antes de tudo, observar as instalações, as condições de higiene do local e o número de bebês por berçarista. A postura dos profissionais também merece um olhar atento, uma vez que eles devem ser amáveis e pacientes. Muitas vezes, crianças bem adaptadas na escola apresentam comportamento inadequado na família e vice-versa. Frequentar a escola não é garantia de limites adequados”, complementa Mariana.

Imposta para crianças e adolescentes, a agenda de compromissos de um adulto começa a atingir até os bebês. “As atividades da criança devem ser dispostas em horários em que elas estejam descansadas e satisfeitas quanto à alimentação. O bom senso deve prevalecer no sentido de não sobrecarregar as crianças e, para isso, o comportamento dela também pode ser um bom termômetro, observando sensações como agitação, apatia, irritabilidade ou sono”, diz Mariana.

Fontes consultadas: Luciana Maria Caetano: Tel. (11) 4169-9418/9937-5188, luma.caetano@uol.com.br; Sebastião Alves de Souza: Tel. (11) 5083-8410, familiacomvida@terra.com.br; Mariana Simão Taliba Chalfon: Tel. (11) 5096-2553, maritaliba@me.com

Texto de Maria Cláudia Aravecchia Klein, com cessão de direito de edição e publicação exclusivos ao portal feminino Clube da Calcinha. Não é permitida a reprodução total ou parcial dos textos sem a expressa autorização do autor (a) e do portal. 


 
Mãe-integral:

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Lia Flávia Savaris Prokisch optou por parar de trabalhar para tomar conta de perto do filho Henrique e não se arrependeu nenhum minuto da escolha que fez: ser 'mãe-integral'

Dicas rápidas para auxiliar na sua escolha:

Escolinha ou berçário: Escolinha não é depósito de criança ou um lugar para largá-la durante todo o dia. Para os bebês, recomenda-se prudência e bom-senso na carga horária, limitando-se ao período de até seis horas. Visite vários estabelecimentos de ensino, preferencialmente, os que foram indicados por amigos ou profissionais da área de educação. Os pais deverão ser informados sobre regras de funcionamento, o número de crianças atendidas por uma única pessoa, nível de formação de cada um dos profissionais envolvidos, a proposta pedagógica, se existe atendimento médico e a real interação da escola com a família, além da infraestrutura e do cardápio.

Familiar (avós, tios, padrinhos): Quem é o familiar com quem a criança vai ficar em casa? É uma única pessoa, ou a criança fica, dois dias por semana com a avó paterna, dois dias com a avó materna, e um dia com a tia? Se esse for o caso, infelizmente, não está sendo uma decisão acertada para a criança, pois bebês necessitam de rotina, e as teorias psicológicas como a psicanálise, afirmam a importância de que a criança tenha um único cuidador, pois ela terá mais confiança e o aspecto afetivo atendido.

Babá: Um bebê que vai para a escolinha muito cedo está mais suscetível a doenças, porém, ficar em casa, sob a supervisão de uma profissional qualificada e com recomendações pode ser uma boa asída. Os pais devem dar uma atenção especial à qualificação profissional na hora da contratação.

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