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Fluvia Lacerda é brasileira e mora em Nova York, onde trabalha há três anos como modelo “plus size”.

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Bonitas e totalmente fora dos padrões

Colaboradora-amiga: Fluvia Lacerda
Dicas, críticas ou sugestões!

Nação dieta?

 

2007 começa com a chance de mudar conceitos e resgatar a essência de mulheres como a minha mãe

As luzes e o glamour do Natal de Nova Iorque, todos os anos, criam um ar romântico, que traz a idéia dos filmes antigos de Hollywood, um sentimento momentâneo de perfeição, de que todos os nossos problemas estão em período de pausa e de que nossos corações buscam, lá no fundo, uma certeza de fraternidade, de renovação. Nossa espiritualidade se dilata, acho que na busca sincera disso tudo.

No entanto, mesmo diante de toda a emoção e aventura que o fim de ano traz na Big Apple, minha mente, no ano passado, só conseguia pensar no progresso e nas mudanças que eu possivelmente poderia ter causado entre as mulheres do meu País. A tão esperada meia-noite do dia 31 de dezembro não foi necessária para trazer, pra dentro de mim, aquele desejado sentimento de recomeço. Dezembro foi, definitivamente, um tipo de início. De uma forma magnífica, o presente que tive nesse mês estava até mesmo fora do alcance de qualquer Papai Noel!

A publicação, na VEJA, de um e-mail escrito por mim, devido à modelo que faleceu por anorexia, causou um efeito furacão. Centenas de mensagens de todas as partes do Brasil e de brasileiras em outras partes do globo abarrotaram minha caixa de e-mails. Por mais que eu busque explicar o sentimento que isso me causou, vai ser meio inútil, porque vai além do que qualquer palavra possa descrever.

O impacto da notícia

Numa noite em novembro, eu estava assitindo à CNN, deprê além da conta diante da notícia da morte da modelo Ana Carolina. Ouvia o depoimento da mãe dela, via cada foto linda que ela fez durante a carreira e, mesmo tendo presenciado isso aqui, o fato nunca fez eu me sentir tão triste e, ao mesmo tempo, revoltada quanto o caso dela... Acredito que muito desse sentimento tenha relação com o fato de ter acontecido com uma mulher do MEU País, onde nasci, cresci, onde estão as mulheres que formaram a minha idéia de beleza (minha mãe, a vizinha, a professora da quarta série...).  O País das mulheres de vozes potentes, de belezas poderosas, peles queimadas do Sol brilhante. Meu País, um lugar mágico, de mulheres magnificentes, fortes, batalhadoras, corajosas. Mulheres de beleza única, beleza louvada por todos ao redor do mundo (É só eu abrir a boca pra dizer “I am Brazilian”, e o sorriso é instantâneo no rosto das pessoas, porque a idéia que se tem do Brasil é essa: feliz, forte, corajosa, sensual, única)...

Meu Brasil, brasileiro

Quando vi as fotos da Ana Carolina por todos os canais de tevê daqui, meu coração ficou do tamanho de um grão de arroz... Não conseguia entender o porquê disso tudo estar acontecendo no meu País!! Não era o nosso princípio básico lutar pra NÃO morrer de fome? Nao é esta a parte da nossa história mais vivida até hoje? Nossa malandragem, jogo de cintura vêm disso, certo? A gente luta pra sobreviver, colocar a comida na mesa pros nossos pequenos, pra nutrir nossa alma tão sofrida... É um princípio bem básico, mas que, realmente, formula a maior parte da nossa essência. Pelo menos, foi assim que eu aprendi durante toda a minha vida. Sou filha de mãe solteira e minhas memórias mais marcantes são de ver minha mãe cuidando de três filhos, estudando e trabalhando pra colocar a comida na mesa e um teto sobre nossas cabeças. As imagens que guardo da minha infância de classe média baixa são de mulheres como minha mãe, que, na hora que a vida permitia, sentada na areia de uma praia, debaixo de um Sol lindíssimo, desfilava a glória de ser BRASILEIRA. Quadris, coxas arredondadas, cabeleira ao vento....nada de maquiagem, nada de chapinha oprimindo os belos cachos, nada de seios plastificados, nada de “puxa-estica-levanta”, feitos numa mesa de cirurgia. Parece poesia?? Mas, de fato, foi.... Na minha cabeça, aqueles momentos formaram quem eu sou hoje. Não me lembro de sofrimentos, lamentações quanto à aparência.... As mulheres que atravessaram a minha vida eram mulheres de verdade. Elas, sem dúvida, nunca pararam pra pensar nisso, como muitas de nós hoje não paramos pra ver a influência que temos nos nossos filhos, sobrinhos ou adolescentes. Mas elas formaram e fortificaram a minha – então – inconsciente idéia de que a minha beleza não precisa de reajustes, mas de celebração.

Tudo se perdeu?

O que aconteceu com todas nós??? Onde as memórias de todas essas mulheres maravilhosas foram parar??? Como foi que deixamos esse mundo tão artificial de faz-de-conta, de páginas de revista e telas de tevê sugar todo o nosso orgulho de sermos quem somos???? E a poesia das muitas bossas novas, dos escritores famosos e desconhecidos, admiradas por tantos homens...?

Sejamos sinceras: a maioria dos homens que conheço gostam de curvas e muitos deles estão pouco ligando pra quantas calorias você comeu hoje! Aliás, o que mais ouço das minhas amizades masculinas é: “eu não sei por que tanto martírio, acho ela linda do jeito que é. Vocês, mulheres...”.

Muitas dessas questões eu consegui responder através das toneladas de e-mails que recebi.... O mais intrigante pra mim foi ler que muitas das mulheres que escreveram se forçam a ser fantoches do universo chamado “SEJA PERFEITA A QUALQUER CUSTO”. Mas o sofrimento ultrapassa qualquer objetivo. A vida se torna uma eterna lamentação. O objetivo, às vezes, é até esquecido, porque se cria uma derrota permanente diante de uma forma meio que inconsciente, segundo a minha percepção pessoal, de que nunca serão como as gostosonas do momento.

Atravessei centenas de blogs e posso dizer que 90% deles são relacionados a dietas.... Procurei saber coisas mais pessoais a respeito de cada uma das internautas que entraram em contato comigo - o que gostam de ler, o que fazem pra se divertir, o estilo de se vestir, momentos especiais, sonhos pro futuro.... Com muitas raras exceções, nada disso foi comentado. Nada. Nos tornamos a nação DIETA, contando miligramas, caindo em depressão porque ganhamos mais um quilo. Perdemos a chance de curtir o prazer de ser mulher, de curtir amores, não conseguimos curtir nada, no constante pensamento de que precisamos ser magras.

Fazer-se ouvir

Quando escrevi pra VEJA, escrevi também para mais de 50 veículos brasileiros que pude encontrar on-line. Tudo o que queria era a oportunidade de mostrar o meu trabalho, como uma forma de apresentar o outro lado da moeda. 

Nunca tive ambições de trabalhar no meu País. Pra ser honesta, sempre soube que jamais teria essa oportunidade. Acho que cheguei a mencionar isso algumas vezes antes. Com isso dito, fica claro que a minha intenção era mesmo tentar repassar a idéia de que a gente pode se amar mesmo sendo - tá preparada?- TAMANHO 48! Rs... Pra muita gente, isso é chocante!!! Pra mim, esse número é como o da balança, é só um número que jamais define quem eu sou.

Nesse Natal, consegui o presente mais maravilhoso que DEUS poderia ter me dado: além da minha saúde física e espiritual, consegui entrar no coração de muitas de vocês, vocês que me escreveram se abrindo, dividindo seus sofrimentos de auto-confianca e auto-estima e a luta constante contra a tão venerada balança.

Não poderia ser mais grata e, às vezes, até repetitiva na idéia, mas, acredite em mim, é tudo o que penso desde então. Mesmo que 99% dos veículos de mídia pra quem escrevi não tenham nem, ao menos, me respondido, através daquela cartinha publicada, meu Natal se tornou FANTÁSTICO!!

Então, vamos lá. 2007 começou em dezembro pra mim por causa de cada uma de vocês... Nenhum ano-novo, na Times Square, em Paris ou em qualquer outro lugar do mundo, poderia ter sido tão maravilhoso quanto o que vivi este ano, cozinhando pra minha família, com amigos ao meu redor, trocando idéias sobre planos pro novo ano, gargalhando das piadas, dançando ao som calmo de João Gilberto e pensando em todas vocês, Brasileiras LINDÍSSIMAS!!! Me sinto honrada pelo privilégio de ter afetado cada uma de vocês de uma forma positiva. Sei que não vou mudar o mundo, mas criei muitas novas amigas, e isso já faz do meu 2007 um ano espetacular!!!

Até mês que vem, BELAS BRASILEIRAS!!!!




 


"O que vale é a opinião que temos

de nós mesmas"

Cada e-mail que recebo me ensina algo novo em relação a cada uma de vocês, que, mesmo se lamentando, por estar aprisionada a essa lavagem cerebral da mídia, também divide fotos de filhos lindos, esposos, namorados, viagens e, no fundo, um desejo de se libertar de toda essa escravidão que é a balança...

O que mais quero é que cada uma de vocês consiga livrar a mente, pelo menos um pouquinho, dessa escravidão e, assim, se dar a chance de pensar em cada uma das coisas positivas que todas temos na vida, porque cada uma delas merece sua celebração, uma comemoração que acontece na hora que acordamos de manhã!! Um pensamento positivo de agradecimento a Deus por tudo que você tem e que muitos, por aí, não têm nem a metade. Lembre-se de cada criança ao seu redor. Você é o modelo de beleza dela. Por se amar, você criará outras Fluvias, que se amam sem sofrimentos, que não ligam para o que o resto do mundo pensa, porque o que vale mesmo é a opinião que temos de nós mesmas!  

 

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