Quem faz o site?



















Fluvia Lacerda é brasileira e mora em Nova York, onde trabalha há três anos como modelo “plus size”.

www.fluvialacerda.com

Bonitas e totalmente fora dos padrões

Colaboradora-amiga: Fluvia Lacerda
Dicas, críticas ou sugestões!

O calor e a vontade de vestir

um biquíni "brasileiro"

Fluvia com o único biquíni brasileiro que conseguiu achar no seu tamanho, detalhe: só a parte de cima serviu.


Não tem uma época do ano pior do que o fim de ano para nós latinos que residimos no hemisfério norte do planeta. Época em que ocorre a chegada do INVERNO! Enquanto o frio vai chegando devagarzinho por aqui, o calor vai estourando por ai, e aos poucos, fazemos a transição simultânea de guarda-roupa, só que ao inverso. Enquanto colocamos nossos shorts e camisetinhas nas mesmas caixas de onde tiramos os suéteres e cachecóis,  vocês estão se besuntando de bloqueador solar e pegando aquele bronze. Não dá para não sentir inveja! Eu me pego freqüentemente pesquisando na Internet preços de passagens para o Brasil. De vez em quando, coberta de casacos e luvas, vou sonhando acordada no trem com as praias lindas do Nordeste, minhas havaianas nos pés, cheirinho de bloqueador solar na pele. Ai que saudades! Não me incomoda muito ter que lidar com o frio, mas o calor definitivamente me faz muito mais feliz.

Partindo dessa saudade eu decidi no ano passado que havia chegado a hora de seguir a migração dos pássaros com destino ao sul e me dar de presente um inverno fora daqui. Foram três meses muito interessantes, onde tive além da oportunidade de pegar um bronze maravilhoso, curtir meus amigos e comer tapioca com carne de sol. Tive também a oportunidade de ser a espectadora do show que são as mulheres brasileiras na praia. Trocando em miúdos, depois que a gente fica fora tanto tempo, a gente esquece bastante de como as pessoas se comportam, a visão delas, a forma com que lidam com o resto do mundo, suas preocupações, comportamento em geral. Diferente de muitos brasileiros “estrangeiros”, eu não fiz a assinatura da Globo satélite e não fiz amizades com muitos brasileiros, nada pessoal, mas acho que se você sai do seu país nativo em busca de  viver e experimentar outras culturas o lance é conhecer pessoas de outros lugares e se isolar um pouco de onde você veio, das suas origens.

Na posição de observadora eu percebi várias diferenças óbvias, mas uma que me chamou atenção pra valer foi a famosa “ditadura do biquíni”, referência com a qual me tornei familiar através das minhas amigas aí no Brasil. De fato o nome já dá um tom pejorativo, e no Brasil parece ser bem mais cruel do que em qualquer outra parte do planeta. Não vou focar no assunto exigência pelo corpo perfeito, afinal, isso está por toda parte e no meu ponto de vista, o lance é ser saudável e gostar de si mesma do jeito que Deus te fez.

Minha atenção se voltou para a falta de opção de um biquíni ou maiô que valorize o corpo de cada uma, da forma certa, independente do tipo de corpo que você tenha! Pelo que percebi, se você não é magérrima, nem sonhe em se vestir bem, e quando o assunto é comprar biquínis, as gordinhas estão fora de questão!!  Nossa pátria amada não está no mapa como o país número 1 em cirurgias plásticas à toa! No Brasil ir pra debaixo da faca hoje em dia é tão comum quanto uma caminhada à farmácia ou ao cinema. Realmente não é moleza fazer parte do grupo de mulheres que não se escravizam (tenho certeza que ainda existem algumas por aí!)  e ficam dependentes das dietas na hora de comprar roupas, sem falar nos biquínis. Se vestir bem, ou pelo menos razoavelmente bem quando seu tamanho é  acima de 46 e 48, é praticamente impossível, e essa foi minha infeliz descoberta durante meu tão sonhado verão brasileiro.

Dei-me conta do quanto estou “mal acostumada” a ser uma gordinha de estilo. Ao passo que me diverti e curti meus dias nas praias lindas do Nordeste, mas me deparei com o fato de que na hora de se vestir bem são poucas as opções no Brasil. A ditadura da moda praia é  totalmente desonesta e cruel e não poder comprar um biquíni ou maiô que sirva devidamente no seu corpo é de fato um terror pra qualquer uma que curta a praia. Sorte a minha que eu, independente de ser gordinha, tenho meu estoque de biquínis que servem em mim perfeitamente, dentro da minha “imperfeição’’. Mas e ai? Imaginei como deve ser terrível pra outras mulheres que como eu, que se curtem da forma que são, mas não tem onde comprar um biquíni que lhe caíbam de uma forma justa e não constrangedora?  Como mulheres, que mesmo repletas de autoconfiança, podem se sentir bem na praia se os biquínis se resumem a pedaços minúsculos de tecido que mal cobrem metade do nosso vasto traseiro??? Chega a soar como um mico? Mas é triste!!! E pode crer, ouvi muitas reclamações e lamentações nesse sentido- MUITAS - durante a minha estadia de três meses!

Ao contrário do que muitos acreditam, a ditadura do corpo perfeito atua forte por aqui (Nós, brasileiras, temos uma parcela de culpa nisso), mas a diferença é que a obsessão por perfeição segue em outra direção - a mulherada passa fome, literalmente!! Você que já teve a oportunidade de ver fotos de atrizes como Kate Bosworth ou Nicole Richie, com certeza vai perceber que Hollywood é bem chegado em ossos cobertos só de pele. Aliás, recentemente o caso da modelo brasileira que faleceu devido às complicações por conseqüência de anorexia foi de altíssima repercussão mundial, foi aí que me dei conta que isso realmente virou uma epidemia totalmente depressiva. Aqui, isso acontece com muito mais freqüência do que a mídia expõe.  Apesar de tudo isso, eu tenho que admitir: em Nova Iorque, tenho a oportunidade de encontrar roupas bonitas e transadas no meu tamanho, o que inclui biquínis e maiôs  que cobrem as partes devidas, me deixando à vontade para curtir o sol e o mar sem precisar me esconder embaixo do guarda-sol, sem tirar a camiseta ou dentro do shorts!

Com essa descoberta eu vi que o verão pode ser de fato uma das épocas mais maravilhosas do ano, como é para mim, me dando umas férias do frio. Só que é também uma das mais aterrorizantes para algumas mulheres brasileiras.  Assim como nos Estados Unidos, a mídia impõe algo que não ruas não parece tão evidente - quando você abre as revistas ou liga a TV, tudo o que se vê são mulheres magérrimas, modelos que vestem tamanho 32, 34, o que para mim não é nada normal! Mesmo assim 68% da população feminina nos Estados Unidos veste tamanhos de 42 a 52. De uma forma ou de outra isso forçou os fabricantes a produzirem os mesmos estilos de roupas, com a mesma criatividade e qualidade para todos os tamanhos, afinal, somos todas consumidoras, filhas de Deus e temos o direito de nos sentir lindas e maravilhosas, certo?

Voltando ao biquíni, fui em busca de um modelo perfeito para um corpo“imperfeito”, de fato não encontrei as opções que acredito que toda mulher mereça.  Nos poucos lugares que encontrei tamanhos GG, esses estavam totalmente FORA DE ESTOQUE - ou seja, fabricados e vendidos duas vezes mais rápido de acordo com os fabricantes e lojistas com quem tive a oportunidade de conversar. Foi unânime ouvir dos mesmos que esse mercado é vasto e lucrativo. Não consegui deixar de pensar na ironia e na contradição de toda essa história.... Se as mulheres no Brasil são de fato tão obcecadas por terem corpos como os das Giseles da vida, elas não devem estar conseguindo muito sucesso em tal busca. Essa seria a lógica baseada na minha experiência.

Moral da história e que soa como um clichê: o importante é olhar para dentro de si mesma e achar no meio da vida difícil e corrida que nós, mulheres, enfrentamos com o orgulho de apreciar quem realmente somos, da forma que somos - gordinhas ou magrelas por natureza, cabelos encaracolados ou escorridos, altas ou baixinhas, - sem nos deixar levar pela constante pressão da idéia superficial de que só temos valor e só somos bonitas se formos tão gostosonas quanto a atriz da novela das 20h... Desse orgulho, com certeza vai crescer a idéia de que depois de uma semana carrasca de trabalho e as mil e uma batalhas que enfrentamos no dia-a-dia, nós todas merecemos, além de curtir o fim de semana de verão à beira da praia, nos vestirmos bem, não importando o tamanho que vestimos.


 


O tema biquíni me faz relembrar do meu primeiro trabalho como modelo em Nova Iorque. Numa mistura de curiosidade e nervosismo, cheguei na minha primeira sessão fotográfica sem saber o que iria acontecer. No caminho pro estúdio, dentro do trem eu imaginava... “aposto que as roupas são horrorosas!”... No Brasil essa é a típica idéia que costumamos ter se tivermos que vestir tamanhos maiores, normalmante, as roupas são mal feitas, bregas ou carregam a aparência de pertencerem as nossas avós! Sem exagero! Ao chegar no estúdio me deparei com todas as luzes, maquiadora, cabeleireiro e um fotógrafo italiano que falava alto, gesticulava tão dramaticamente quanto um ator de uma peça de teatro, muito divertido! Todos foram super simpáticos. Desde então me dei conta da reputação que a beleza da mulher brasileira carrega, os elogios foram infindáveis.

Maquiagem e cabelos prontos, tive a oportunidade de ver as roupas que iria usar e foi então que tive conhecimento que aqui, o mercado de roupas seria bem mais generoso com a minha genética! Os vestidos eram lindos, elegantes, bem feitos e tão sexies quanto os que costumava ver nas revistas de moda, mas que nunca eram feitos no tamanho certo pra mim. Chegada a hora de mandar ver em frente à câmera, nunca me senti tão linda e poderosa! Foi a primeira experiência onde me dei conta que não somente eu dou mesmo pra coisa, mas que desconhecia o poder que uma peça de roupa bem feita e apropriada pro meu tamanho poderia ter. Acredito que nunca me liguei muito em fashion até porque sempre acreditei que nunca poderia me vestir bem devido a nunca poder encontrar algo legal que servisse em mim. Minha primeira experiência como modelo foi fantástica, não somente pela sessão fotográfica e a mágica que envolve esse tipo de trabalho, mas por que descobri que não somente posso como tenho o direito de me vestir bem!

O sucesso do meu primeiro trabalho para minha própria surpresa conquistou a posição de modelo permante com o mesmo cliente por todos esses anos. É claro que fiquei super feliz em saber que de cara fiz um trabalho bem feito, no entanto, pensei comigo... “Que mulher não se sentiria linda e com a auto-estima lá em cima bem vestida?".

 

 

ANÚNCIOS: CLIQUE AQUI!
 
VOLTAR        IMPRIMIR     |   
 
QUEM FAZ O SITE?
      

 

© Copyright Clube da Calcinha. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução na íntegra do conteúdo das páginas deste site em qualquer outro meio de comunicação, sem autorização escrita do editor e dos colaboradores do Clube da Calcinha. Possibilita-se a citação de trechos dos artigos, desde que seja feita referência expressa à autoria e à fonte.