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Fluvia Lacerda é brasileira e mora em Nova York, onde trabalha há três anos como modelo “plus size”.

www.fluvialacerda.com

Bonitas e totalmente fora dos padrões

Colaboradora-amiga: Fluvia Lacerda
Dicas, críticas ou sugestões!

Gordinha e linda, sim.
E por que não?


Pensei em uma forma interessante de me apresentar e achei que poderia começar o nosso contato falando sobre minha história.

Meu nome é Fluvia Lacerda e, aos 17 anos, resolvi me aventurar, sem pensar muito, e vir para a grande Nova Iorque. Nem preciso dizer que foi uma mudança radical, já que troquei a liberdade que vivi durante minha infância no Norte do Brasil pela loucura da “Big Apple”. Já faz 10 anos que isso aconteceu e é até estranho dizer isso, mas, sinceramente, não tive dificuldades de me adaptar. O frio não me incomodava, a saudade não era tão difícil de lidar... Talvez devido à ansiedade que tinha de viver todas as aventuras que imaginei até então ou simplesmente pelo fato de que cresci me mudando de um lugar para o outro.

Mas nada me preparou para a revolução que aconteceu comigo anos depois de eu ter “trocado de casa”.

Um belo dia (toda boa história precisa desse começo...rs), estou eu dentro de um ônibus “atravessando” Manhattan quando fui abordada por uma americana, que me questionou sobre a possibilidade de trabalhar como modelo. Achei que era uma piada (até procurei pela câmera escondida)... Como poderia eu ser considerada “material” ideal para modelo? Modelo não tem de ser “pele e osso”?

A tal mulher era editora de uma revista de moda. Ela me deu seu cartão e me direcionou para uma agência de modelos, dando uma explicação rápida de como funcionava a idéia toda e que, para minha própria surpresa, esse era um mercado lucrativo e de grande sucesso. Claro que, na típica correria dos nova-iorquinos, ela desapareceu do ônibus tão rápido quanto apareceu, mas me deixou com um trilhão de dúvidas na cabeça!!!

Alguns dias depois, após longos debates com a minha família inteira, decidi tomar coragem e ir conhecer a tal agência. Para minha surpresa, eu consegui, sem muita dificuldade, um encontro com o agente indicado pela editora da revista. Aparentemente, ela já havia entrado em contato com ele e mencionado a possibilidade da minha visita.

Com as mãos transbordando de suor de puro nervosismo, consegui conversar com ele e entender todos os detalhes sobre o que envolve o trabalho de modelo. O que achei mais legal foi ter sido considerada uma “ beleza exótica”! Nem preciso dizer que a fama que nós, brasileiras, temos em relação à beleza no mundo todo é enorme, mas ele também amou a idéia de eu ser a única “tupiniquim” nesse ramo. Na minha cabeça, só conseguia pensar: “Obrigada, Deus, pelas raízes misturadas que nós, brasileiros, temos sorte de ter!!!”... Morro de orgulho de ser brasileira. Deus sabe como!

O agente colocou o contrato nas minhas mãos e me disse para levá-lo para casa, lê-lo e pensar... Além de achar tudo aquilo surreal, eu fiquei ultrafeliz, claro! No caminho de volta, meu sorriso era tão grande que devia assustar as pessoas que cruzavam minha frente!

Agora, posso dizer que o que faz da minha história uma história interessante é que sou e sempre fui GORDINHA. Essa agência é apenas uma das várias que existem na grande Nova Iorque que têm uma divisão especialmente dedicada a representar modelos “plus size” e, como a editora da revista mencionou, esse mercado aqui é muito popular. Eu, vestindo tamanho 48, caí na sorte grande de faturar em cima de quem sou, sem precisar morrer de fome! Sonho não???

Os resultados

Minha jornada na carreira de modelo “plus size” tem sido um conto-de-fadas! Quem diria que uma gordinha poderia ser considerada linda e sexy? Eu seria a primeira pessoa a não acreditar em tal idéia. Especialmente considerando os padrões da minha terra natal, isso seria até cômico. Cômico mesmo é quando vou visitar familiares e amigos no Brasil e conto para eles sobre meu trabalho aqui, sobre o sucesso, as viagens, a correria... Eles me olham da forma mais engraçada possível! Acredito que questionem o mesmo que eu me questionei no início: modelo? Aí, mostro meu book e, de repente, vejo o espanto e a realização de notarem que, de fato, uma gordinha pode ser fotografada de uma forma bonita e sexy, e que as gordinhas podem se sentir dessa forma também.

Mas, se você me perguntar a parte mais gratificante do meu trabalho, eu vou lhe dizer com toda franqueza do mundo que são os e-mails de mães, avós e meninas me agradecendo por mostrar o outro lado da moeda, que, através do meu trabalho, consigo demonstrar que beleza não está apenas no número da roupa que você veste, mas na forma com que você se vê e se cuida. Ter a oportunidade de mostrar que gostar de si mesma é um sentimento absolutamente necessário para qualquer um é o lado mais positivo do que faço.

Hoje, três anos após o início da minha carreira aqui, tenho um sucesso do qual me orgulho, principalmente pela mensagem positiva que acredito passar adiante. Já fotografei para revistas nacionais, fiz campanhas de moda em que cada curva do meu corpo foi apresentada tão perfeitamente quanto as que estamos acostumadas a ver com as modelos magras...

O meu trabalho mais recente tem sido um imenso sucesso: fui escolhida para sair na capa do primeiríssimo calendário nacional de modelos “plus size”! Com isso, tenho recebido grande atenção da mídia por aqui e sempre sou questionada sobre se o meu trabalho é reconhecido no meu país da mesma forma que é nos Estados Unidos. Claro que, apesar da resposta ser “não”, eu sempre digo que esse é o meu sonho, de dividir a idéia de um lado positivo quanto à beleza feminina e também, quem sabe, ter a chance de trabalhar e de ter as mesmas oportunidades aí no Brasil.

E por falar em oportunidade, a chance de escrever esta coluna mensal veio para mim como um sonho!!! Esta é uma posição superimportante, de poder dividir minhas experiências com todas vocês, assim como gostaria de ouvir a de vocês.

Este é apenas um pequeno trecho da minha história. E espero poder continuá-la de uma forma positiva, com vocês também...

Tchau, tchau belas!

 

Ser gordinha no Brasil

Só nós gordinhas sabemos como é a ditadura carrasca das milhões de dietas malucas a que as mulheres se submetem para, então, conseguir se achar bonitas.

No meu caso, eu nunca consegui me forçar a tal ponto...

Minha família é uma daquelas em que a maioria é magra, mas, por alguma razão, eu sempre fui assim.

O que não é tão típico a meu respeito é que nunca tive complexo algum em relação ao meu corpo. Nunca fui paranóica, nunca me achei “inferior” às mulheres magras. Apesar da pressão (às vezes não tão sutil como gostaria!) de amigos e familiares que insinuavam que eu deveria me cuidar mais e perder peso, seguida dos comentários do tipo “seu rosto é tão lindo”, como se eu fosse uma cabeça sem corpo, flutuando pelo universo, eu sempre gostei de mim mesma do jeito que sou. Nunca fui uma pessoa inativa, sempre adorei andar de bicicleta, sempre comi da forma mais saudável possível e, antes que você ache que a vida por aqui em Nova Iorque é repleta de McDonald´s, essa não é uma realidade entre a maioria das pessoas que conheço, e muito menos a minha. Sou bem “natureba”, como dizem por aí.

Cozinho em casa, faço as escolhas mais saudáveis possíveis, mas não rejeito um arroz com feijão (O ditado não mente: você tira a brasileira do Brasil, mas não tira o Brasil da brasileira!). Tenho um ritual de exercícios do qual não sou escrava, diga-se de passagem, mas procuro seguir sempre que o tempo possibilita. Ando 15 quilômetros de bicicleta, pelo menos, três vezes por semana. Quando não estou viajando a trabalho, faço aula de Flamenco uma vez por semana. Enfim, isso é só pra esclarecer que meu corpo e a minha natureza são assim e que não sinto necessidade de mudar.

Não aceito ser escrava de dietas, aliás, nunca fiz uma dieta na minha vida! Nunca encontrei uma razão sequer para me escravizar à ditadura de passar fome.

 

 

 

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