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Comportamento
“Todos nós estamos querendo falar, sermos escutados, mas não tem ninguém ouvindo”
São mais de um milhão de ligações por ano. Mais de 2.500 voluntários que atendem 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano, nos 57 postos espalhados por todo o Brasil. O telefone toca, em média, a cada 33 segundos. Estes são alguns dos números do Programa CVV - Centro de Valorização da Vida -, que há mais de 44 anos oferece apoio emocional gratuito à comunidade, por meio de atendimento personalizado. O respeito ao anonimato, o sigilo absoluto e a confidencialidade no atendimento são alguns dos princípios básicos do grupo, que fala com qualquer pessoa, sem distinção de idade, sexo, religião, classe social e formação cultural. As conversas podem acontecer por telefone, 24 horas por dia; pessoalmente, em horário comercial, nos postos espalhados pelo País; por e-mail e, em breve, por chat. A procura pelo CVV não se restringe às pessoas propensas a cometer suicídio, mas envolve, também, os casos de aumento da apreensão e do nervosismo dos jovens que irão prestar o vestibular, de infelicidade de pessoas no trabalho, de depressão de crianças e adolescentes, do aumento do sentimento de solidão que muitos sentem quando chega o fim do ano... Para conhecer um pouco mais sobre esse trabalho, o Clube da Calcinha conversou com Elaine, que trabalha há 13 anos no CVV e é porta-voz voluntária do instituto - seu sobrenome não é revelado porque o serviço mantém a identidade dos voluntários sob sigilo. Clube da Calcinha - O que a levou a entrar no CVV? Elaine – Na verdade, um professor do colegial falou que havia um trabalho que tinha muito a ver comigo e perguntou se eu não queria trabalhar no CVV. Eu nunca tinha ouvido falar, não sabia nem o que era. Aí, ele disse que era sobre prevenção de suicídio. Quando ouvi isso, levei um susto. Então, ele explicou que era um trabalho que tinha muito a ver comigo e com as coisas em que eu acredito. E pediu meu telefone e RG para me cadastrar e, se eu quisesse, entrariam em contato para que fizesse o curso. Depois de meses, me ligaram. Fiz o curso e me apaixonei. Realmente, tinha tudo a ver com o que eu gostava. Desde menina, sempre gostei de trabalho voluntário, sempre estive envolvida com alguma coisa desse gênero. C.C. - Como funciona o seu trabalho? E. - O CVV funciona 24 horas por dia, está disponível à sociedade para conversar por telefone, pessoalmente, tem o horário que varia das 7h às 20h, também atende por carta, por e-mail e vamos começar a atender por chat. É um trabalho gratuito, assim, o custo da ligação de pulso normal e oferece apoio emocional às pessoas que procuram o trabalho. Não é um ouvir passivo em que o outro só fala e você fica escutando. Na verdade, é o que a gente chama de escuta ativa. A gente conversa com essa pessoa, facilitando para que ela mesma se ouça, para que ela mesma perceba o que está se passando no universo interior dela e vá se organizando emocionalmente.
C.C. - Qualquer pessoa pode ser voluntária do CVV? Como funciona esta escolha? E. - Existe um perfil específico para ser voluntário do CVV, assim como um perfil para ser voluntário em outras frentes de trabalho. Sempre uso o exemplo do hospital. Se tenho dificuldades em lidar com problemas de saúde ou com sangue, talvez o hospital não seja o melhor lugar para ser voluntária. No caso do CVV, existe um curso que se chama Programa de Seleção e Capacitação de Voluntários, em que a gente não somente seleciona, mas também capacita a pessoa para se tornar um plantonista. O acreditar que o outro é capaz de resolver a própria vida, que a resposta não está na gente, não é uma fórmula mágica. Por exemplo: uma pessoa que adora dar conselhos, que gosta de interferir na vida das pessoas e dizer o que elas têm de ser ou deixar de ser, já não seria um perfil para ser voluntário no CVV. Talvez, num outro trabalho, ela tenha esse perfil. É necessário, também, ter no mínimo 18 anos e disponibilidade para um plantão semanal de 4h30, além das reuniões, treinamentos e aperfeiçoamento ministrados uma vez por mês. C.C. - Você utiliza algum método de ajuda às pessoas? E. - Nós usamos uma abordagem centrada no grupo que tem muito a ver com Paulo Freire e outras vias da educação que visam o potencial do próprio grupo. O CVV não tem nenhuma linha doutrinária. Ele “pegou” um pouco de cada coisa e foi se descobrindo e se transformando enquanto instituição. Mas o que ele faz é trabalhar muito com o potencial do grupo, ajudar para que o próprio grupo se perceba, se descubra, se desenvolva... E aí existem algumas técnicas de abordagem centradas na pessoa que é você não focar nos problemas que existem, mas, sim, nas questões emocionais. Organizar os sentimentos, pensamentos e ações e harmonizar isso. Para isso, temos dinâmicas de grupo e um curso muito gostoso. O feed back que recebemos das pessoas que participam é: “Eu vim aqui para ajudar e acabei transformando a minha vida”. Acredito que o CVV é mais do que um trabalho voluntário, é uma proposta de vida. É um convite a se autoconhecer, a se autoaprimorar, a se tornar um ser humano melhor para que possa contribuir com o planeta, com a vida e valorizar a vida como um todo.
C.C. - O que as pessoas costumam falar quando ligam para o Centro? A maioria das ligações é com real intenção de cometer suicídio? E. - Na verdade, todos pensam que as pessoas que ligam para o CVV têm pretensão de se matar. E não é isso, porque o CVV trabalha com a prevenção ao suicídio. O que seria isso? Como metáfora, eu tenho um copo cheio de água e está com uma torneira pingando em cima dele. Se você não esvaziar um pouco o copo, tem uma hora que ele irá transbordar. Se é uma prevenção, usamos também o exemplo da vacina. O médico não usa a vacina para que as pessoas não fiquem doentes? Então, no nosso caso, é facilitar para que as pessoas desabafem, que elas se reorganizem, se harmonizem e não venham a pensar em desvalorizar, em desistir da própria vida. O que as pessoas falam? Falam da própria intimidade, das próprias coisas, daquilo que está acontecendo, daquilo que está incomodando, daquilo que está agoniando e fazendo sofrer. Coisas que, de repente, ela tem ali para compartilhar, mas que se sente insegura para falar com as pessoas que conhece. Ela tem medo de usarem isso contra ela depois, ou mesmo vergonha. No caso do trabalho do CVV, sempre destacamos que é totalmente sigiloso. Aquilo que você fala fica só entre você e o voluntário. Você não precisa se identificar, falar nomes, nem de onde está ligando. Não tem bina e nem rastreador. Então, isso traz uma tranqüilidade para quem está falando. Agora, também liga gente para falar sobre coisas que estão a deixando feliz, como conquistar alguma coisa, uma promoção, um sonho, uma viagem, e não tem com quem compartilhar ou, às vezes, não confia em dividir com as pessoas. C.C. - Você já atendeu ligações de pessoas com real intenção de cometer suicídio? O que fez? E. - A gente sempre atende pessoas que são mais ou menos propensas a pensar nessa questão. Nós não costumamos anotar os casos e nem comentar sobre eles. O que eu posso te falar, que até me emociona muito, é de pessoas que ligam ou nos procuram aos prantos e você percebe que ela não está bem e está propensa a desistir da vida e, aos poucos, conforme ela vai falando e as coisas vão clareando na vida dela, vai se sentindo respeitada e confia na dignidade humana dela e se sente compreendida, vai ficando mais tranqüila e mais leve. Isso traz uma satisfação para o voluntário no sentido de sentir que está contribuindo com a valorização daquela vida. C.C. - Já teve algum caso em que a pessoa ligou muito mal e, depois, retornou para agradecer o apoio? E. - O CVV não faz nenhum acompanhamento das pessoas que ligam. Mas existem, sim, pessoas que ligam, principalmente na época de final de ano, porque passaram por alguma situação difícil. Aí, no Natal, resolvem ligar para o CVV para agradecer e dizer: “Olha, se eu estou aqui hoje, é graças a você”. Existe isso, mas nós não vamos atrás e nem cobramos esse retorno das pessoas que nos ligam. C.C. - Há casos de voluntários que ficaram deprimidos ao ouvir histórias de sofrimento, angústia, depressão e desespero? E. - O que existe é uma preocupação do CVV, de forma contínua, em preparar seus voluntários para que eles possam atender e lidar com diversas situações. E, aí, o voluntário conta com o apoio do próprio grupo, ou seja, o grupo de voluntários que se reúne mensalmente para treinar, se aperfeiçoar, para se autoconhecer. E isso acaba apoiando e fortalecendo o voluntário enquanto pessoa e cidadão atuante na sociedade. C.C. - Por algum motivo em especial, houve algum caso que mais te marcou? E. - Todos os casos nos marcam. E por que não foco em um caso especifico? Imagine que todas as pessoas que ligam estão falando sobre aquilo que elas têm de mais precioso e de mais sagrado, que é o íntimo delas, o segredo delas, é a vida delas. E, de repente, você vê essa vida exposta. Não seria muito legal. Por um outro lado, o que marca sempre é você ver uma pessoa que chega aos prantos, aos cacos mesmo, mal, triste, desiludida e, conforme ela vai conversando, falando, até começa a sorrir. Isso é uma coisa que sempre marca. Se cada um pudesse ouvir um pouquinho mais quem está ao lado e conversar, talvez, muita coisa pudesse ser diferente. Outro fato que marca muito é aquela coisa que pais ligam porque os filhos não escutam, e os filhos ligam porque os pais não escutam; o patrão liga porque está insatisfeito, o subordinado liga porque se sente oprimido; quer dizer, estamos todos nós querendo falar e sermos escutados e ninguém ouvindo. É muito interessante perceber a gente, enquanto sociedade, perceber o quanto podemos ser solidários uns com os outros. C.C. - O quanto isso é gratificante para você? E. - Certamente, sem dúvida nenhuma, é sentir que estou contribuindo de alguma forma com a valorização da vida. Sentir e acreditar que o trabalho do CVV faz a diferença. E acreditar numa sociedade mais fraterna, mais justa e igualitária, com as pessoas vivendo em harmonia. Uma das coisas que mais me fascinou quando entrei no CVV foi ouvir que o Centro era uma proposta de vida que tinha, como intuito, deixar de existir um dia, ou seja, que a sociedade chegasse em um patamar de evolução em que ela fosse tão fraterna e acolhedora que não fosse mais necessário existir um serviço como esse, porque as pessoas realmente seriam os apoios umas das outras. Acho isso sensacional. Lembro que o fundador falou que “dada uma certa maturidade na vida, você percebe que ser voluntário é um exercício e um dever de cidadão”. Isso quer dizer que não adianta você ficar só reclamando da vida, da sociedade e das pessoas, você precisa fazer a sua parte também. Precisa contribuir de alguma forma.
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