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Comportamento Escrito por: Maria Cláudia Aravecchia Klein "Otimismo das marchinhas"
As melodias eram tão boas, que são lembradas até hoje por ex-carnavalescos de várias gerações. São cantadas com o mesmo sentimento como se fossem jingles e propagandas antigas. Eram acima de tudo otimistas e simples. Usavam uma linguagem do tipo universal, que em segundos, durante a primeira volta no salão, eram memorizadas e cantadas ao vento do abano dos leques de papel cartão. O Carnaval era mais inocente, tinha o deslizar dos dedos dos meninos pelo prolongamento dos cabelos, os puxões nos colares havaianos, o beijo roubado, o enrosco das serpentinas no pescoço e a chuva de confetes. "Abre Alas", "Chiquita Bacana", "Me dá um dinheiro aí", "Cidade Maravilhosa", "Mamãe Eu Quero", "Maria Sapatão", "Bota Camisinha", "Eu Mato" - são inesquecíveis e melhores do que muitos samba-enredos. Eu não curto mais Carnaval. Muita gente não curte mais Carnaval. Que graça tem em assistir pela TV ao luxo dos desfiles nas grandes apoteoses, ver as "globais", "atrizes" e "apresentadoras" com seus corpos esculpidos por uma vida regrada de horas de academia e tratamentos estéticos gratuitos e, após desfilarem suas medidas-padrão, rumam aos camarotes patrocinados pelas cervejarias, empresas de telefonia e venda de celulares e se esbaldam de farta comida, bebida e cliques das câmeras das revistas de celebridades. E na Bahia, a ‘alegria pura’ contagia a multidão salivar e beijoqueira como se o mundo fosse acabar no momento seguinte. Viva a solteirice. Todos atrás do trio elétrico, "que só não vai quem já partiu dessa para melhor mesmo", com seu abadá, revelando o status de quem tem mais para pagar. A festa não é popular? Tem ainda camarote VIP com DJ internacional, repleto de celebridades que se esbaldam mais uma vez e curtem música eletrônica. Nas praias, no interior e nos retiros, você ainda corre o risco de ser assaltado, tomar um banho de espuma de spray chinês, um balde d' água na cabeça, uma cornetada no ouvido, um funk carioca com letra inaudível e um trânsito infernal na ida e na volta. Tem volta? Infelizmente, a das marchinhas, acredito que não. |
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