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Angela Nelly Gomes, entre outras coisas, é jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Uma autêntica cabocla paraense apaixonada e curiosa por cinema! Mora em São Paulo há mais de 10 anos, mas vive sonhando com o dia em que vai dar a volta ao mundo, já que viajar também é outra de suas paixões.

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Não Por Acaso: até onde a vida pode ser controlada


Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros brilham na trama engenhosa que fala de acaso, lógica, amor e solidão


Fotos: Divulgação

Razão, emoção, obsessão pelo método, pelo controle, encontro, desencontro, amor, solidão... Este emaranhado de temas brota o tempo todo em cada cena do enredo não menos emaranhado de “Não Por Acaso”. A precisão da arte da sinuca – pois é assim vista no filme – e o rigor do controle do trânsito caótico de São Paulo são os elementos usados para simbolizar a queda de braço que se vive a cada segundo entre acaso e planejamento, razão e emoção, lógica e intuição, ou seja, o que cada pessoa coloca do outro lado da balança. 


Tudo isso está na história do engenheiro de trânsito Ênio (Leonardo Medeiros) e de Pedro (Rodrigo Santoro), jogador de sinuca e fabricante de mesas do jogo. Esses são os dois protagonistas, que levam uma vida tão previsível quanto a de um funcionário público e de um carpinteiro. Pedro, obcecado pela sinuca e acostumado à vida simples, acha que tudo é questão de planejar e repetir jogadas. Ênio, o solitário que tem seu trabalho como religião, acredita que controlar as emoções é tão possível quanto monitorar o caos do trânsito. Acostumados à rotina e ao controle dessa rotina, vêem suas vidas transformadas, de uma só tacada, por um acidente.


Mas, na verdade, nada é por acaso em “Não Por Acaso”, a começar pelo elenco. A atuação brilhante de Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros, e mesmo das coadjuvantes Branca Messina e Rita Batata, já responde pela maior parte do mérito da película. Apenas Letícia Sabatella parece pouco à vontade no papel da executiva ambiciosa.


Santoro foi treinado por profissionais e campeões do taco (Renato da Matta e Silvia Taioli), trabalhou em uma marcenaria e jogou bilhar em botecos do Bixiga, bairro paulistano. Envolveu-se tanto no universo do jogo que virou ele mesmo um mestre e não precisou de dublê para fazer as jogadas mirabolantes e com altíssimo grau de precisão. Não é à toa que é, hoje, o ator brasileiro de maior projeção no exterior, pois há muito já mostrou que não se restringe a um rostinho (e um corpinho) lindo!  Medeiros, outro mestre da dramaturgia brasileira, também fez imersão no mundo dos técnicos da CET para viver o engenheiro de trânsito e sociopata urbano Ênio, e o faz de forma brilhante. Recebeu, inclusive, o troféu de melhor ator no último CinePE, em abril.

Além disso, tem a capital paulista que, como cenário, é também protagonista por si só. O espectador faz um passeio por uma São Paulo agradável e aconchegante, mesmo com a cara de metrópole cheia de arranha-céus, viadutos e trânsito congestionado. Uma cidade de verdade, mas que nos passa despercebida na rotina do dia-a-dia.

“Não por Acaso” reúne vários ingredientes da receita dos bons filmes: roteiro inteligente, elenco de primeira, bela fotografia. No entanto, mesmo com tudo isso e mais uma produção de peso (O2 Filmes, Fox, Globo) que o lançou com um certo estardalhaço, promete mais do que entrega. Primeiro longa do carioca Philippe Barcinski, diretor que coleciona prêmios com curtas em festivais no Brasil e no exterior, é cheio de qualidades. Porém, no fundo, deixa a sensação de que tudo foi tão milimetricamente planejado, forçando a todo custo uma poética, que perdeu a graça.  Vale pelo “conjunto da obra”, mas acaba sendo um filme correto sem ser surpreendente.

E quem não concordar muito comigo, achar que estou equivocada, mande um e-mail e me diga o que achou do filme. Quem sabe eu passe a vê-lo de outra forma!

 
 

Não Por Acaso (2007)

Estreou em 7 de junho

Gênero: drama

Diretor: Philippe Barcinski

Elenco: Rodrigo Santoro, Leonardo Medeiros, Letícia Sabatella, Branca Messina, Rita Batata, Cássia Kiss, Graziella Moretto

 

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