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Parte interna da casa.
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Com selo verde
Apesar de ainda soar inusitado demais, construir e morar em um local ecologicamente correto pode ser mais barato e viável do que parece
Fotos: José Henrique Vieira

Uma casa que, em vez de tijolos, é sustentada por amarrações de bambu e barro. Que tem um sistema de filtragem de água do esgoto para reutilização na irrigação do jardim. Que conta com aquecimento e refrigeração natural... Enfim, uma casa ecológica, construída em conformidade com os princípios ambientais e que tem custo de produção reduzido. Isso mesmo! Pode parecer ousado demais, mas residências desse tipo existem, apesar de, no Brasil, ainda haver poucas unidades. Em São Paulo, na região de Cotia, por exemplo, os arquitetos Ana Lucia Siciliano, Frank Siciliano e Marcelo Todescan, da Todescan Siciliano Arquitetura, realizaram um projeto que obedece a esses conceitos.
Veja como ele foi feito, quais são as suas vantagens e considere esta iniciativa como um exemplo de que a luta pela preservação do meio ambiente pode começar, literalmente, no seu lar, doce lar.
Clube da Calcinha - Como surgiu a idéia de criar uma casa 100% ecológica?
Marcelo Todescan - Na verdade, o nosso escritório é um dos pioneiros a incluir técnicas sustentáveis e bioconstrutivas nos mais variados projetos há 13 anos. Este, especificamente, surgiu da necessidade da moradora, que optou por um design moderno, ético e funcional.
C.C. - O que é uma casa 100% ecológica?
M.T. - É um projeto que não remete apenas à ecologia. É muito mais do que isso: inclui valores sociais, ecológicos e econômicos, além de uma nova visão de mundo. Um exemplo de valor social que posso citar neste projeto foi a participação efetiva da moradora e de seus familiares, que formaram um verdadeiro mutirão para amassar o barro e fazer as paredes de pau-a-pique. Outro é o consumo consciente e o uso de materiais sustentáveis, ou seja, ecologicamente corretos, que não agridem o meio ambiente e estão de acordo com a certificação ambiental IS0 14000, como é o caso do eucalipto, da tinta à base de pigmentos naturais, das telhas recicláveis, dos tijolos bioconstrutivos, dos revestimentos ecológicos, da argila, do bambu e da palha de arroz.
C.C. - Qual o principal objetivo dessa proposta de arquitetura? Você acha possível que todas as casas tornem-se 100% ecológicas no futuro?
M.T. - O objetivo é colocar em ação a consciência das pessoas em preservar o meio ambiente e fazer com que avaliem o impacto que essa opção trará futuramente, levando em conta as próximas gerações. Quanto ao futuro, acredito que as pessoas não terão mais escolha. Por isso, temos de agir agora.
C.C. – O que a casa apresenta de mais inovador?
M.T. - Na estrutura, utilizamos a técnica milenar japonesa “Tshuchi Kabe” (pau-a-pique), muito usada na construção de templos budistas e de casas de luxo há milhares de anos. A técnica, que consiste em sustentar a parede com amarrações de bambu e barro, foi escolhida por sua tradição milenar e por se tratar de uma eficiente solução socioambiental, pois, além de sua simplicidade, conta apenas com matérias-primas naturais, e o resultado é extremamente positivo, seja do ponto de vista funcional ou visual. Há, também, um sistema de reutilização de água, em que é feita uma filtragem do esgoto para irrigar o jardim. Para tratar o esgoto, usamos uma tecnologia denominada Biossistema Integrado – BSI –, em que reaproveita-se a energia do biogás, recicla-se os nutrientes por meio da irrigação, reduz-se a emissão de gases de efeito estufa com a queima do metano e, por último, há o cuidado com a natureza, já que, quando deixamos de lançar esgoto nela, colaboramos com a preservação do solo e da água. Já no caso da refrigeração, como as paredes são revestidas de barro, elas controlam a umidade e a temperatura interna da residência, muito melhor do que a de alvenaria convencional. Portanto, a casa fica fria no verão e quente no inverno.
C.C. - Quais as vantagens de realizar uma casa desse tipo?
M.T. - O consumo consciente, a preservação do meio ambiente, a redução do impacto no planeta e, principalmente, uma melhor qualidade de vida.
C.C. - Os gastos para a construção de uma casa ecológica são maiores do que para uma convencional? Por quê?
M.T. - Engana-se quem pensa que um projeto de bioconstrução custa mais do que um convencional, pois as matérias-primas usadas são quase sempre locais, como pedras, madeira reciclada, bambu, terra e argila. Atualmente, no mercado, existem muitas empresas que disponibilizam produtos de qualidade a bons preços.
C.C. - Esteticamente, a casa ecológica apresenta diferenças significativas em relação a uma convencional?
M.T. - Observando-a, ela não difere de nenhuma outra construída com elementos não-sustentáveis. É aí que está a diferença. A mudança de paradigma está na pessoa e nos elementos que ela vai trazer para dentro da casa. Construir um projeto de bioconstrução não teria sentido para esta família se ela não adotasse medidas simples para contribuir com o futuro do planeta, como a reciclagem do lixo. Este tipo de construção não é modismo. É um conceito de vida que, no futuro, não terá concorrentes. É isso ou nada!
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