Arquivos mensais: agosto 2012

A casa amarela

Por dias e semanas seguidas, Ulisses perseguiu com os olhos a ansiosa Manu. Tudo começou quando ela entrou na loja dele à procura de um novo frasco para acondicionar suas pimentas.
“A pequena Manu, frágil como o vidro”, pensou Ulisses.
Desde menina, antes mesmo de descobrir o talento gastronômico, o que Manu amava acima de tudo eram as cores das pimentas. Muito mais do que os aromas e os sabores. Do paladar, ela adorava a sensação de dormência na língua e a queimação gradativa das bochechas. Sentia, com prazer, aquele ardor gostoso descer goela abaixo e ir parar no estômago, mexendo com os seus ânimos.
Sim, a pimenta mexia com os seus ânimos. Dizia a todos que a pimenta era sim o seu refresco. Na horta da casa amarela, onde vivera a infância e a adolescência, Manu se aventurava no colorido mundo das ardidinhas. E, depois que aprendeu a condimentar, ela passou a fornecer a especiaria para o bairro todo. Para quarteirões a perder de vista. E começou a garimpar frascos em restos de vidreiros e antiquários.
E foi num desses lugares que Manu conheceu Ulisses. Amante da arte vidreira, o que Ulisses amava acima de tudo era o poder de criar e recriar formas a partir de um sopro. Ele nunca havia pensado em amar uma mulher. Não teve namoricos de escola, nem nutriu paixões platônicas. Nunca deitou com uma mulher. Tinha um amor incondicional pelo vidro. Até conhecer Manu.
Em pouco tempo, ele já sabia, não só o nome dela, mas a diferenciar o sabor suave e quase nulo da pimenta rosa de um muito, muito picante, como o da malagueta. Descobriu que ao contrário do vidro, a vida não se esfria tão rápido. A garota das pimentas passou a ser sua obsessão. Seguiu-lhe os passos pelas ruas. Achou a casa amarela. Chegou até bem perto da campainha. Suas mãos quase a tocaram. Mas, Ulisses dava meia-volta e se escondia.E quando Manu aparecia diante do balcão da loja dos vidros de Murano, sempre tinha alguém por perto. Ulisses, antes frio, começou a suar frio. Ele se irritava. E ela não o notava. Não da forma como ele queria. Foi então que ele resolveu fazer uma pimenta de vidro. Vermelha, ardente, pegando fogo.
A caixa de presentes com um laçarote vermelho chegou pelo correio. Manu era curiosa. Abriu o pacote às pressas, tropeçou, derrubando a obra de arte no chão. Não deu tempo nem de ver o que era. Muito menos de que se tratava de uma escultura em homenagem às pimentas. Agora, despedaçada. Cacos de vidro no tapete, que a vassoura de Manu varreu rápido. Sem remetente, a caixa sobrou ao lado da lata de lixo.
Os dias seguiram e Ulisses ficou sem entender. Sem saber. Nem uma palavra, nem um comentário. Ele, então, passou a seguir Manu com os olhos. Ardentes de raiva, de rejeição.
Certo dia, os quarteirões a perder de vista ouviram os disparos que vinham da casa amarela. “Sua ingrata!”, Ulisses dissera antes de apertar o gatilho friamente. Descarregou o revolver contra o coração de Manu. Não queria sangrar o seu rosto lindo. Não queria sujá-lo. Queria apenas sangrar o coração da moça para que ela sentisse o mesmo aperto, a mesma angústia de ter uma obra de arte e um amor renegados.
Manu não emitiu nenhum som. Sorriu ao abrir a porta. “Finalmente ele tomou a iniciativa”, pensou ela. E silenciou. Silenciou.
Conto escrito por Maria Cláudia Aravecchia Klein para a oficina de Biografia & Ghost de Nanete Neves  http://www.oficinadeescritacriativa.com.br/portfolio.asp

Suando a camisa Dudalina

Nas relações atuais, temos de aproveitar, mas sem abusar, o fato de poder contar com a ajuda dos homens em quase tudo – no parto humanizado, na educação dos filhos, nos cuidados com a casa e até nas idas ao terapeuta para discutir a relação.

Cláudio é um ex-chef de cozinha, tem dois filhos e é casado com Alice, uma alta executiva de 43 anos de idade, que viaja frequentemente para fora do país, em virtude das responsabilidades que adquiriu na empresa. Depois de trabalhar por longos anos na mesma companhia e ter se submetido a tratamentos para engravidar, ela conquistou o cargo que tanto desejava, mas está longe de participar da vida dos gêmeos.

Por causa da ausência da esposa, Cláudio é um “pãe”, ou seja, quebra o galho como mãe em muitos momentos com os filhos e os familiares. Quando tem festa, no meio da semana, na escola, por exemplo, ele deixa a imobiliária, na qual faz um bico como corretor, e corre para participar do encontro. Nas folgas da babá, ele marca presença também na cama das crianças nas noites em claro acometidas pelas febres repentinas.

Tudo estaria bem se Cláudio não estivesse se sentindo extremamente frustrado, sozinho e, literalmente, deixado para segundo plano. As férias e as idas aos bons restaurantes são bancadas pela mulher, que ganha muito mais do que ele, e isso o incomoda muito.

Alice costuma chegar em casa cansada e encontrar o marido, na frente do fogão, preparando aquele jantarzinho gostoso. Ela nunca preparou a papinha dos meninos. Sente-se sobrecarregada e sabe que precisa estar à disposição da empresa, afinal é a provedora.  A única diferença é que ao invés de chegar com aquela roda de suor em baixo do braço, chega com a camisa Dudalina ainda perfumada.

Com todas as modernidades que nos cercam, é comum nos depararmos com a ilusão de que ser mulher hoje é bem mais fácil do que era nos tempos das nossas avós. Sinceramente, com os homens sendo também bem-sucedidos nos papéis domésticos e “maternais”, vai ficar cada vez mais difícil para o nosso lado.

Realizada pelo IBOPE Mídia, a pesquisa Novo Homem – Comportamento e Escolhas, um estudo sobre o comportamento e os hábitos do homem do século XXI, mostra que eles se consideram preparados para lidar com mulheres mais bem-sucedidas profissionalmente, e 50% dizem ter vontade de deixar até de trabalhar para se dedicar exclusivamente à família. E, ainda, acreditam estar aptos para cuidar da casa e dos filhos sozinhos.

Sucumbimos, conquistamos, concretizamos e lutamos diariamente. Desmerecendo, claro, os ensinamentos da afortunada Martha Stewart. Achamos que fazer crochê, tricô, ponto cruz, costurar uma barra, pregar um botão, ter vasinhos na janela da cozinha, caprichar nas receitas e na papinha do bebê são tarefas menos valorizadas e nada importantes, principalmente quando comparadas à aquela apresentação naquele evento “ultra-mega” da empresa.

Vivemos numa confusão de papéis digna de crises existenciais. É comum nos pegarmos, muitas vezes, orgulhosas, vestidas ‘a la blogueiras de moda’, carregando uma tonelada de compras sozinhas, que pagamos com dinheiro ou cartão da “própria bolsa”. E, minutos depois, quando bate aquela frustração, questionarmos que não moramos sozinhas, temos um homem ao nosso lado e que nos orgulhamos, mesmo, quando ele sai à caça e volta munido de todas as delícias para encher a geladeira e garantir as fraldas diárias dos bebês. Cláudio e Alice vivem esse dilema.

Há quem se saia bem no jogo da inversão de papéis, mas ele pode ser extremamente prejudicial em alguns relacionamentos. O bom senso é fundamental. E o termômetro ainda é o melhor indicativo. No caso de Cláudio e Alice, está na hora de repensar os papéis e invertê-los novamente. As crianças sentem falta da mãe e ele sente falta da adrenalina das panelas e das altas temperaturas da cozinha dos restaurantes.

Vale admitir também que admiramos um homem pelo simples fato de ele ser um homem! Tudo bem que essa definição é diferente para cada uma, pois está baseada em tudo aquilo que aprendemos e nos exemplos com os quais nos deparamos ao longo da vida. Mas, para levantar os pelinhos do braço e arrancar suspiros, é preciso que exista muita admiração por aquele que está ao nosso lado. Frente a isso, não podemos esquecer de tudo aquilo que também nos faz ser ‘mulherzinhas de verdade’.