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Danielle Motta
é jornalista, brasileira e, desde outubro de 2006, mora no Canadá.
É nossa consultora-amiga e correspondente internacional.

 

Uma brasileira no Canadá

Consultora Amiga e correspondente internacional
diretamente do Canadá Danielle Motta
Dicas, críticas e sugestões!


Carnaval e trabalho: assuntos
que sempre dão o que falar


Fotos Danielle Motta

Se tem uma época do ano que eu gosto mais é o período entre Fevereiro e Março. Não só porque é meu aniversário (em Fevereiro), mas pelo calor gostoso do Brasil, que combina direitinho com o clima de Carnaval. E eu, particularmente, A-DO-RO o Carnaval. Todos os anos, costumo viajar com amigos para curtir esse feriadão que é um privilégio, abençoado por Deus, só dos brasileiros.

Aqui em Vancouver, pude descobrir alguns dos motivos pelos quais o Brasil é tão conhecido por seu “samba” - como os estrangeiros denominam -, mesmo por pessoas que nunca tiveram a oportunidade de experimentar um pouquinho do que é essa maravilhosa festa. Um coreano, por exemplo, me contou que ele aprendeu na escola sobre os três maiores festivais do mundo, e o Carnaval era um deles!

Nem preciso falar que fiquei aqui tentando não pensar em como o Brasil deveria estar agitado, nas TVs mostrando as Escolas de Samba, no trânsito (caótico!) das estradas, nas praias lotadas… Por isso, evitei ver as notícias na Internet para me conformar com a idéia de que estou em um país muuuuuuito frio, onde as comemorações do mês giraram em torno do Valentine’s Day, no dia 14 (o que não foi nada mal!), e do Canadian Flag’s Day, 15 (muitos aqui nem sabem que este existe!).

Mas, no caso do Marcos Paulo (meu namorado), foi um pouco diferente. Para ele, ficar longe da família, da vida paulistana e dos costumes brasileiros não é nada fácil. Desde Janeiro, ele vem se esforçando para continuar aqui, mas sei que não vê a hora de voltar para o Brasil. Estou tentando segurá-lo em Vancouver, e já tive algum sucesso, porque, se dependesse dele, já estaríamos de volta há muito tempo. Imagine, então, com o Carnaval bombando no Brasil! Meu conselho foi que tentasse ocupar a mente com alguma obrigação, que a ansiedade passava, como estou fazendo. Uma das minhas opções, por exemplo, é a de prestar ajuda voluntária, o que é muito comum entre os canadenses. Já que não podemos trabalhar legalmente - pois nosso visto é de estudante -, não há problema algum em investir nosso tempo, voluntariamente, para certos tipos de atividades - e, de quebra, ainda praticamos o inglês!


Trabalhar no Canadá

É impossível não comparar o que é trabalho para os canadenses e o que significa trabalho para nós, brasileiros. Com um território que é o segundo maior do mundo em extensão, mas com uma população que não ultrapassa 35 milhões de habitantes (o que equivale a menos do que a população do Estado de São Paulo), o Canadá está longe de enfrentar crises relacionadas à falta de emprego. E a tranqüilidade devido à boa oferta de trabalho reflete claramente no comportamento dos canadenses, que não se sentem na obrigação, como nós brasileiros, de engolir desaforos de patrões que usam e abusam de poder, valendo-se da triste e dura realidade que é a de ter (e permanecer!) - em um emprego.

Mas é claro que, assim como no Brasil, algumas cidades canadenses apresentam maior potencial de mercado profissional, e outras, bem menos. Por isso, se alguém tem a intenção de vir para cá em busca de melhores oportunidades de vida, é essencial escolher o lugar certo, para que a idéia do “Sonho Americano” - neste caso, adaptado para “canadense” - não se transforme em ilusão.

Vancouver, por exemplo, é uma cidade maravilhosa para viver. Tem um clima agradável, se comparado ao restante do País, além de um dos maiores potenciais de turismo do mundo, mas não conta com um mercado de trabalho tão amplo como a cidade de Toronto - situada na província de Ontário, na porção leste do território -, que é considerada a “São Paulo” daqui.

O que percebo é que muitos brasileiros vêm para Vancouver e se sentem um pouco decepcionados pela dificuldade de encontrar trabalho, mesmo com uma quantidade considerável de cartazes na frente dos estabelecimentos com as famosas frases “Now hiring” ou “Help wanted”. Mas o que acontece é que a grande maioria chega sem o visto com permissão de trabalho ou não tem inglês suficiente para desenvolver bem uma profissão e, por isso, fica limitada na hora da contratação das melhores ofertas, tendo, então, de se sujeitar a empregos menores ou que exigem mais esforço físico - e que os canadenses não estão muito a fim de enfrentar!

Para as mulheres brasileiras, por exemplo, as opções são sempre as mesmas: babysitter, cleaner, waitress, dishwasher... Essas são profissões em que são pagos os menores salários, que, em média, vão de sete a 12 dólares canadenses por hora, o que não é muito se comparado ao custo de vida de Vancouver, considerado o mais alto do Canadá.

Entretanto, podem haver boas oportunidades para mulheres que vêm com o visto apropriado e que dominam bem o idioma, pois os canadenses, na maioria dos casos, valorizam o desempenho feminino, e a desigualdade de salários, posições e poder não é tão acentuada.

Além disso, o Canadá apresenta um conjunto de leis que beneficia a vida das mulheres modernas, que têm de trabalhar e ser mãe, esposa e dona-de-casa ao mesmo tempo. Como a forma mais comum de pagamento dos salários é feita por hora, dependendo do lugar que se trabalha, cria a possibilidade de ter mais de um emprego ou de fazer o próprio horário, escolhendo, inclusive, os dias da semana mais favoráveis. Isso garante uma certa tranqüilidade em relação à decisão de ter filhos, já que, assim, elas podem pautar sua rotina de acordo com a programação das crianças. As leis canadenses também permitem que, ao dar à luz, a mulher pode ficar de licença remunerada por um ano - e não quatro meses, como no Brasil -, mas, nesse caso, recebendo cerca de metade do salário.

 

De olho em 2010!

Como já citei algumas vezes, Vancouver sediará os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Inverno de 2010. A cidade está a todo vapor, se preparando para receber os mais de 6.700 atletas e oficiais, os cerca de 10 mil representantes da imprensa de todo o mundo e um número imprevisível de turistas. E, especialmente no mês de Fevereiro - que marcou a contagem regressiva de três anos para a abertura oficial dos jogos (12 de Fevereiro de 2010) -, várias comemorações foram realizadas.

A mais esperada delas foi a inauguração de um relógio digital, que está contando os dias, as horas, os minutos e os segundos para o início do grande evento. E é claro que marquei presença!

Debaixo de uma chuvinha que nem chegou a incomodar e em pleno meio-dia (no Brasil, eram seis da tarde), lá estava eu, no meio de uma multidão com cerca de duas mil pessoas, segurando uma bandeira do Brasil, como se estivesse representando os (poucos!) atletas brasileiros que participam dessa competição.

Apesar de muitos canadenses protestarem contra a realização das Olimpíadas, confesso que senti uma emoção especial por poder presenciar mais um dos momentos históricos do esporte mundial. Mas o mais interessante, para mim, aconteceu no final da celebração, que foi a céu aberto, em uma praça de Downtown, quando me deparei com Renee Smith-Valade, vice-presidente de Comunicação do VANOC (Vancouver Olympic Organizing Committee), que abriu o discurso da celebração. Ela estava tirando fotos com alguns turistas e aproveitei para entrar na onda e garantir a minha. Na intenção de ser simpática comigo, ela me perguntou: “De que país é esta bandeira?” Meu Deus, acho que não tive decepção maior aqui em Vancouver. Como pode uma pessoa tão influente e que faz parte de um comitê de Jogos Olímpicos não conhecer a bandeira do meu Brasil? Eu, delicadamente, respondi: “É do Brasil. Acho que você não conhece porque não temos tradição em Olimpíadas de Inverno. Não temos neve”. Ela deu um sorriso, dizendo: “Que pena! Mas estou muito honrada de tê-la aqui com a gente”. Ganhei meu dia! Agora, ela conhece a nossa bandeira!!!

 

 

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