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Fabrício Carpinejar
Escritor, poeta, jornalista e professor. É autor de "As Solas do Sol", "Um Terno de Pássaros ao Sul", "Terceira Sede", "Biografia de uma árvore", "Caixa de sapatos", "Cinco Marias" e "Como no céu/Livro de Visitas", além do infantil "Porto Alegre e o Dia em que a cidade fugiu de casa”. Lançou recentemente seu primeiro livro de crônicas, "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil). carpinejar.blogger.com.br

 

Nosso amigo poeta

Colaborador Amigo: Fabricio Carpinejar
Dicas, críticas ou sugestões!

Camisa azul-grená

Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia.

Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las.

Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa.

Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes.

De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários.

Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda.

Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio.

Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia “pedalando” a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia “desdentada”. 

O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido.

Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los. Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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