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Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Filho do casal de poetas e escritores Maria Carpi e Carlos Nejar, nasceu na cidade de Caxias do Sul em 23 de outubro de 1972. Foi diversas vezes premiado: Prêmio Destaque Literário da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (2000), Prêmio Nacional Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores/RJ (2000), Prêmio Literário Internacional Maestrale/San Marco (2001), Prêmio Açorianos (2001 e 2002), Prêmio Nacional Cecília Meireles (2002), Prêmio AGES (2003), Prêmio Nacional Olavo Bilac (2003) e Prêmio O Sul (2004). Do autor, a Bertrand Brasil publicou também Cinco Marias (2004), Como no Céu/Livro de Visitas (2005) e As Solas do Sol , que acabou de ser relançado em uma edição revista pelo autor. Serão reeditados, também pela Bertrand, Um Terno de Pássaros ao Sul , Terceira Sede e Biografia de uma Árvore . O autor foi traduzido ao alemão por Curt Meyer-Clason e assinou contrato com a Éditions Eulina Carvalho, de Paris, para a edição francesa de Cinco Marias . Participou de antologias no México, Colômbia, Índia e Espanha.

Reflexão

Escrito por: Maria Cláudia Aravecchia Klein
Dicas, críticas ou sugestões!

Sempre vivi para Elas

Após publicar os aclamados Cinco Marias e Como no Céu/Livro de Visitas e reescrever sua obra de estréia (As Solas do Sol, relançado pela Bertrand Brasil em 2005), o poeta Carpinejar aceita encarar mais um desafio com O Amor Esquece de Começar. Seu primeiro livro de crônicas traz prosas líricas que falam de amor, sob todos os prismas e pontos de vista. Para Carpinejar, não há nenhuma dificuldade em abordar tal tema nos tempos atuais - muito pelo contrário. "É difícil não falar de amor, justamente quando mais precisamos dele", afirma. "Necessitamos do amor para entender a amizade, o perdão, a fé, a solidão. O amor é o nosso Ensino Fundamental. Nada resultará sem ele. Profissão sem amor é carreira. Profissão com amor é vocação."

 

Após quase dez anos publicando poesia, você resolveu lançar seu primeiro livro de crônicas. Essa já era uma idéia antiga?

Não era uma idéia antiga. Não faço projetos, dificilmente cumpro o que a realidade me pede, e o resto do tempo uso para duvidar dela. O livro se fez naturalmente, como quem pede um copo d'água na madrugada. Foi uma necessidade de discutir tabus, mexer em certezas, resgatar as virtudes da convivência. Numa época marcada pelo excesso de liberdade sobre o amor, esquecemos a responsabilidade, a dedicação e o carinho com o outro. Viramos tiranos da liberdade. Defendemos mais a liberdade pessoal do que a justiça e a compreensão. Somos obrigados a ter prazer e a ser feliz sem perceber que a felicidade é uma construção a dois. Tudo é possível, acredito, desde que não seja a custo de ferir alguém. Quero recuperar o romantismo, uma visão cristalina e verdadeira das relações amorosas, um cuidado na fala, a sedução. Sem idealismo, mas com idealização. A expectativa e a confiança fazem bem ao amor e não podem ser abolidos. Desde Cinco Marias , é minha obra com mais alma feminina. Momento em que meu corpo masculino conversa com a minha alma. Desejo, com as mulheres, o consenso das mãos durante o dia e dos pés durante a noite.

 

Há poesia em sua prosa, assim como há prosa em sua poesia. Para você, qual a principal diferença entre O Amor Esquece de Começar e seus livros de poemas?

As crônicas são a insônia da minha poesia. Uma maneira de me mostrar mais, de me expor mais, de dizer o que penso sem a proteção de personas poéticas. Nos versos, estava contaminado de heterônimos. Já não sabia mais quem eu era (risos) . A prosa me devolveu a identidade. Aqui o personagem é o leitor.

Que tipo de literatura você mais lê?

A crônica pode representar o vestíbulo da literatura. Onde os gêneros trocam de roupa.  A crônica brasileira é uma das melhores coisas que se pode fazer e ler. É levar a praia para dentro de casa. É levar a serra para dentro de casa. Rubem Braga, Antonio Maria, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende, entre tantos, transformaram esse espaço em apanhados líricos, pungentes e atemporais. Apesar de escreverem em jornal, superaram as circunstâncias em favor das delicadezas. Todos precisamos de uma foto 3x4. A solidão de uma foto 3x4. A crônica é essa fotografia miúda que nos resume, que consta nos documentos. Uma foto 3x4 é, dos retratos, o mais íntimo. Só guardaremos na carteira uma imagem 3x4 de quem amamos.

 

Em seu blog há muitas reproduções de pinturas e esculturas. As artes plásticas têm influência em sua literatura?

Sou um ser visual, a pintura costuma me influenciar mais do que o cinema e a música. Poderia viver fazendo legendas de quadros e de esculturas. Gosto da combinação de fronteiras, da transposição de linguagens, da mistura de planos. A pintura possibilita o confronto - nunca como uma mera ilustração do texto no blog. Ela é um outro texto que me questiona.

 

Os embriões de muitas das crônicas presentes no livro surgiram em seu blog, termo que vem de "web log" - algo como "diário virtual". Podemos, de certa forma, encarar O Amor Esquece de Começar como uma espécie de "diário literário"?

O blog é uma experiência incrível, porque os textos continuam nos comentários. Não terminam com meu ponto final. Venho recebendo mais de 350 visitantes por dia e adivinho o que são por aquilo que pensam. Ponho o meu melhor ali. Minha alegria é infantil, tem entrada franca. Mas não diria que é um diário, não quero registrar os dias e os anos, quero registrar a intensidade das estações, a temperatura do convívio, o sumo debaixo da casca das datas. São relances, pinceladas e costumes reinventados. Polemizo crenças. Sou às vezes exagerado, sou às vezes sentimental, sou às vezes passional, mas nunca neutro, controlado, frio. Se erro, é pelo excesso. Minha carência já é amor.

 

O lirismo de seus textos vem das pequenas coisas, da beleza (ou feiúra) do dia-a-dia que muitos deixam passar despercebida. Quais as suas maiores inspirações? O que leva você a encarar uma folha em branco?

Não tenho pavor da folha em branco. O único tecido branco em casa é o lençol e traz confiança. A folha já estava ocupada desde que cheguei - só tive a atenção de organizá-la. Meus textos partem da realidade mais imediata, da separação, do namoro, da maternidade, da conquista, do medo de viver sozinho, a partir de detalhes singelos. Ao escrever crônicas, falo com a mão no ombro do ouvinte. Ao ajudá-lo me ajudo. Vejo-me como um distraído para dentro. Procuro mostrar diferentes pontos de vista, versões, visões. Eu me desloco com rapidez. Capto uma expressão do senso comum como "dar o tempo" e tento defini-la até soar diferente ou explico as diferenças entre distância e distanciamento ou me detenho ao que fazer com um fogão com a tampa de vidro quebrada. Quero ir além do que já foi dito. As crônicas surgem do esquecimento de nomes de filmes, da leitura do jornal várias vezes ao dia, do que parece trivial e determina nossas ações. Por exemplo, quando se fala para uma criança pequena no almoço que será a última colher, com certeza não será a última.

 

O Amor Esquece de Começar aborda muito do universo feminino - às vezes sob um olhar externo, masculino, mas outras vezes parecendo partir diretamente da alma de uma mulher. Existe um forte lado feminino em Fabrício Carpinejar ?

Sim, existe. Fui criado por uma mulher, minha principal amiga na infância foi a irmã mais velha, na escola sempre me dei melhor com as meninas do que com os meninos. A esposa é minha confidente. A sensação é que sempre vivi para elas. E ganhei a vida em dobro em sensibilidade e compreensão.

 

É difícil falar de amor no século XXI?

É difícil não falar de amor, justamente quando mais precisamos dele. A tecnologia pode favorecer encontros - o amor virtual não é mais um conto de fadas. Necessitamos do amor para entender a amizade, o perdão, a fé, a solidão. O amor é o nosso Ensino Fundamental. Nada resultará sem ele. Profissão sem amor é carreira. Profissão com amor é vocação.

Agora o poeta é também cronista, blogueiro, jornalista, crítico literário, colunista, apresentador de televisão... São ocupações diferentes que precisam ser conciliadas ou tudo isso faz parte da grande arte de Fabrício Carpinejar?

Não me divido, me somo. Eu me divirto com o que faço. Adoro desafios, só é dizer que não sei fazer para me inspirar a tentar. Aceito provocações com facilidade (risos) .

 

O que podemos esperar para o futuro? Contos? Romances? Novos livros de poemas?

Não farei contos e romances. Meu temperamento é poético. As crônicas não me mudam, me intensificam. Intensificam o raciocínio lírico. Devem vir mais livros de poesia. Minha próxima obra - talvez para 2007 - será de versos de um pai sobre a experiência de um filho em casa e de um filho morando longe dele.

 

O Amor Esquece de Começar

O amor, como a atmosfera, nos envolve, nos alimenta. Também pode envenenar. O amor é o mais intenso dos sinônimos da vida, o mais permanente, o que de fato salva. O amor nos consome e nos consuma. Na coletânea de crônicas O Amor Esquece de Começar, Fabrício Carpinejar, autor dos aclamados livros de poemas Cinco Marias, Como no Céu/Livro de Visitas e As Solas do Sol, comparece pela primeira vez vestido em prosa, em linguagem fluente, conversando quase num sussurro generoso - porque o que ele nos traz são notícias, impressões, e mais, a força impactante, reconfortadora e capaz de fazer nascer o ser que sempre fomos. Só que, desta vez, completos. A mulher, principal interlocutora de seus textos certeiros, não está sozinha. O homem também pode participar dessas revelações que, apontadas numa direção, atingem todos e tudo.

Livro: O Amor Esquece de Começar Lançamento: março de 2006

Autor: Carpinejar

Preço: R$ 35,00

Capa: Silvana Mattievich

Formato: 14 x 21cm

 

 

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